IA no esporte
Inteligência artificial no futebol: como a IA já é usada hoje (do impedimento semiautomático ao Palmeiras)
A IA já traça a linha do impedimento, sugere jogadas a técnicos, ajuda clubes a garimpar jogadores e move os zagueiros do videogame. Mas não apita o jogo. Veja cada uso, com fonte, do Brasileirão à Copa de 2026.
Por Redação Atualiza IA (com IA)

A inteligência artificial no futebol já trabalha em seis frentes: traça a linha do impedimento, sugere jogadas a técnicos, ajuda clubes a garimpar jogadores, tenta antecipar lesões, alimenta a estatística da transmissão e move os zagueiros do videogame. Uma coisa ela não faz: apitar o jogo.
Abaixo vai cada uso, com a fonte de cada número.
Onde a IA entra no jogo
| Uso | O que a IA faz | Quem decide | Exemplo real |
|---|---|---|---|
| Arbitragem | Reconhece jogadores, acha o instante do passe e desenha a linha em 3D | Equipe do VAR confere; árbitro de campo decide | Brasileirão desde a 20ª rodada; Copa de 2026 |
| Tática | Simula como a jogada se desenrola e testa outras posições | Comissão técnica | TacticAI, do Google DeepMind, no Palmeiras |
| Scout e dados | Gera métricas de desempenho e filtra vídeos de jovens atletas | Analistas e olheiros | Opta Vision no Palmeiras; app Footbao |
| Lesões | Cruza carga de treino, histórico e dados físicos | Departamento médico | Ferramentas comerciais como a Zone7; evidência científica ainda limitada |
| Transmissão | Calcula xG, estabiliza a câmera do árbitro, gera a animação do impedimento | Produção da TV | Referee View na Copa; xG da Opta |
| Videogame | Controla os jogadores que você não está comandando | Quem está no controle | EA SPORTS FC 27 |
Como funciona o impedimento semiautomático no Brasileirão?
A CBF assinou em 14 de novembro de 2025 o contrato com a Genius Sports para usar o impedimento semiautomático (SAOT, na sigla em inglês) na Série A e na Copa do Brasil em 2026 e 2027. Na prática, segundo o TechTudo, a Copa do Brasil ainda não usa o sistema, porque parte dos jogos acontece em estádios menos equipados. A estreia foi na 20ª rodada, no fim de semana de 25 e 26 de julho, e o primeiro acionamento aconteceu em Santos x Chapecoense.
Segundo a própria CBF, cada estádio recebeu de 28 a 32 câmeras dedicadas, que gravam em 4K a 100 quadros por segundo. O sistema faz sozinho três coisas:
- identifica o instante exato do último toque na bola (o kick point);
- reconhece os jogadores envolvidos e marca os pontos do corpo de cada um;
- gera o resultado do lance, "sem qualquer interferência humana nessa construção", nas palavras da CBF.
Ainda segundo a CBF, o "semi" do nome está só na validação: a equipe do VAR não redesenha a linha, apenas confere e confirma o que a máquina produziu. A entidade admite uma exceção: em casos raros, como jogadores encobertos, o VAR pode avançar ou recuar um quadro para acertar o instante do passe. Segundo o TechTudo, a palavra final continua com o árbitro de campo. No Brasil a bola não tem chip.
A IA no VAR deixou a checagem mais rápida?
Na estreia, o sistema foi acionado cinco vezes, com média de 47 segundos por checagem. O número é da CBF. O TechTudo compara esse dado com a média de 2025, que foi de 1min40 por interrupção. Só que aquele 1min40 vale para todas as intervenções do VAR no Brasileirão de 2025, de qualquer tipo, não só impedimento.
Então a comparação não é de igual pra igual: cinco lances de uma rodada contra uma temporada inteira de revisões de todo tipo. O sinal é de checagem mais rápida, mas com amostra pequena. E a polêmica não sumiu: na 25ª rodada, lances em Athletico x Fluminense e Vasco x Cruzeiro reacenderam a discussão, conta o TechTudo.
A tecnologia só cuida de impedimento. Pênalti, mão na bola e expulsão seguem na revisão de vídeo tradicional.
E na Copa do Mundo de 2026?
Na Copa, a FIFA foi além. Segundo a entidade, 1.248 jogadores foram escaneados em 3D, e os avatares entraram no sistema para medir o corpo de cada atleta e deixar a animação do lance mais fiel. Segundo a FIFA, os impedimentos posicionais claros passaram a ir direto para a arbitragem em campo, e o assistente já pode levantar a bandeira na hora. Se o jogador impedido interferiu no lance sem tocar na bola, o sistema não decide.
A bola oficial, a Trionda, tem um sensor de movimento de 500 Hz desenvolvido com a Kinexon. Segundo a adidas, os dados da bola vão em tempo real para o VAR e, combinados com a posição dos jogadores e com IA, ajudam a decidir o impedimento mais rápido. É uma das diferenças para o sistema do Brasileirão, que usa mais câmeras e não tem chip na bola, segundo o TechTudo.
Como a IA ajuda na tática? O TacticAI e o Palmeiras
O TacticAI nasceu de uma parceria do Google DeepMind com o Liverpool. O artigo na Nature Communications, de 19 de março de 2024, usou 7.176 escanteios da Premier League cedidos pelo Liverpool, coletados entre a temporada 2020-21 e janeiro de 2023. A IA trata cada jogador como um ponto de uma rede e as relações entre eles como ligações. Com isso, ela prevê o que vai acontecer no lance e sugere outra posição para os jogadores.
No teste, cinco especialistas do Liverpool avaliaram 50 situações. Em 45 delas (90%), a maioria preferiu a sugestão da IA à jogada original. É um resultado interessante, mas foi medido em escanteio, com uma amostra pequena.
Em 10 de junho de 2026, o Google anunciou que traria o TacticAI ao Brasil "em colaboração com o Palmeiras e a CBF". Segundo o The Next Web, o Palmeiras é o primeiro clube a usar a ferramenta em jogada corrida, e não só em bola parada. A previsão vai até oito segundos à frente. Ainda segundo o TNW, a equipe de ciência de dados do clube arrasta jogadores na tela para ver como o time e o adversário reagiriam.
Não há dado público sobre o efeito disso nos resultados do Palmeiras.
Scout com IA: como os clubes usam dados para contratar
Em 15 de janeiro de 2024, o Palmeiras anunciou um acordo com a Stats Perform para usar o Opta Vision. São métricas enriquecidas com IA para análise de desempenho e contratação: medem, por exemplo, a tomada de decisão de um jogador com a bola. O acordo também prevê o uso dos dados físicos da plataforma para avaliar o desempenho dos jogadores. Segundo o clube e a Stats Perform, o Palmeiras foi o primeiro time sul-americano a adotar a ferramenta.
Nas seleções, a FIFA e a Lenovo criaram o Football AI Pro. É um assistente que cruza centenas de milhões de dados da FIFA e responde em texto, vídeo, gráfico e 3D. A ferramenta serve para análise antes e depois das partidas, não durante o jogo. Em balanço de 30 de junho, a FIFA disse que as 48 seleções da Copa usaram a ferramenta, lá chamada de FIFA AI Pro.
Na base, a IA começou a entrar na peneira. Um exemplo é a startup Footbao: pelo app, jovens mandam vídeos que passam por modelos de IA, analistas e olheiros. Segundo números da empresa publicados pelo NeoFeed em junho, são cerca de 120 mil cadastrados, 14 mil avaliados e mais de 300 recomendados a clubes. A empresa diz manter relação com mais de 35 equipes. Em todos esses casos, quem contrata é gente.
A IA consegue prevenir lesão?
Resposta honesta: ainda não dá pra confiar. Uma revisão sistemática publicada em 20 de julho de 2026 no Journal of International Medical Research reuniu 22 estudos sobre aprendizado de máquina para prever lesão em jogador de futebol. Os modelos cruzam carga de treino, histórico de lesão e dados físicos.
A acurácia relatada variou de cerca de 55% a 96%, mas os próprios autores alertam que esse número engana: lesão é um evento raro, e um modelo que responde quase sempre "sem lesão" acerta muito sem prever nada. Os modelos se saíram melhor em lesões sem contato e de tecidos moles, como as musculares, do que em lesões por contato. Mesmo assim, os autores concluem que a evidência é heterogênea e limitada. Para eles, esses modelos ainda não podem ser recomendados para a rotina de prevenção. Isso não impede o uso comercial. Segundo reportagem da ESPN de 2021, a Zone7 já atendia mais de 50 clubes, entre eles o Getafe, parceiro desde a temporada 2017-18. Na prática, ferramentas assim servem como alerta para o departamento médico olhar com mais atenção, não como oráculo.
Onde a IA aparece na transmissão?
O número de "gols esperados" (xG) que aparece nas transmissões costuma vir de modelos de aprendizado de máquina, e cada fornecedor tem o seu. O da Opta, segundo a própria empresa, usa uma técnica chamada XGBoost treinada com quase 1 milhão de finalizações. Ela pesa mais de 20 variáveis, como distância, ângulo e posição do goleiro, e dá a cada chute uma nota de 0 a 1. Na final da Copa, a própria página da ESPN traz dois números para a Espanha: 1,94 de xG no relato do jogo e 2,29 na tabela de estatísticas, contra cerca de 0,2 da Argentina. É mais um sinal de que o xG é a estimativa de um modelo, e não uma medida única.
Na Copa, a FIFA também usou IA para estabilizar em tempo real a imagem da câmera presa na cabeça do árbitro, o Referee View. No Brasileirão, a animação em 3D do impedimento que aparece no telão e na TV é, segundo a CBF, a representação de um cálculo automático já conferido pelo VAR.
E no videogame? O EA FC 27
No EA SPORTS FC 27, nas notas de jogabilidade, a empresa diz que tirou força da "IA de defesa". No modo competitivo, os zagueiros do seu time que a IA controla não dão mais o bote sozinhos quando o atacante chega perto, e alcançam menos passes numa interceptação do que um defensor que você controla. A ideia é que você assuma a marcação. A EA também diz que as corridas dos seus atacantes feitas sem comando manual passaram a levar em conta a linha de impedimento.
O que a EA descreve é IA de jogo: as regras de comportamento dos jogadores que cê não controla. A página não menciona IA generativa.
O que ainda é mito sobre IA no futebol?
"A IA apita o jogo." Não apita. No Brasileirão e na Copa, a máquina calcula e a arbitragem valida e decide.
"O supercomputador previu o campeão e errou." Primeiro, o "supercomputador" da Opta não é um chatbot nem uma IA generativa: segundo a própria Opta, é um modelo estatístico que estima a chance de cada jogo e simula o torneio milhares de vezes. Antes das semifinais da Copa, ele rodou 25 mil simulações, conta o Lance!. A França foi campeã em cerca de um terço das simulações, e a Espanha, segunda favorita, tinha 23,4% de chance de título. A Espanha venceu a Argentina por 1 a 0 na prorrogação, em 19 de julho.
Um resultado isolado não prova que o modelo errou. Quem tem um terço das chances fica sem o título duas vezes em cada três, e 23,4% é quase uma chance em quatro. Pra ler previsão de futebol:
- a porcentagem diz com que frequência aquele resultado aconteceria se o torneio fosse jogado muitas vezes;
- nenhum número abaixo de 100% garante nada;
- um modelo é bem calibrado quando, somando muitos jogos, os resultados que ele deu como 25% acontecem mais ou menos uma vez em quatro.
"O ChatGPT sabe quem vai ganhar o Brasileirão." Um chatbot gera um texto plausível a partir do que leu. Isso não é um modelo estatístico alimentado com os dados da rodada.
Por que isso importa pra quem gosta de futebol
Entender como a linha do impedimento é traçada muda a discussão de bar. Segundo a CBF, a animação é um cálculo automático conferido por gente. Isso não a torna infalível: ela depende da calibração das câmeras e da escolha do instante do passe. Dá pra questionar a câmera e o critério, mas não faz sentido acusar "a IA" de torcer. Também ajuda a separar ferramenta de marketing: Opta Vision, TacticAI e Football AI Pro são produtos com dono e limites, e nenhum deles substitui o técnico.
E cê pode brincar disso em casa. Um assistente como o ChatGPT ou o Gemini organiza estatística do seu time e explica um conceito como xG. Tem opção boa sem pagar nada na nossa lista de IAs gratuitas por categoria. Se quiser assinar, veja quanto custa cada plano em reais. Só não trate a resposta do chatbot como dado oficial: confira o número na fonte.
Perguntas frequentes
A IA decide o impedimento no Brasileirão?
Não. O sistema da Genius Sports acha o momento do passe e desenha a linha sozinho, mas a equipe do VAR confere o resultado, e a palavra final é do árbitro de campo.
O impedimento semiautomático do Brasileirão é igual ao da Copa?
Não é igual. No Brasil são de 28 a 32 câmeras por estádio e a bola não tem chip. Na Copa de 2026 havia menos câmeras, a bola Trionda tinha um sensor de 500 Hz, e os jogadores foram escaneados em avatares 3D.
O que é o TacticAI do Palmeiras?
É uma IA do Google DeepMind que simula como uma jogada vai se desenrolar e sugere outras posições. Nasceu analisando escanteios com o Liverpool e chegou ao Brasil em junho de 2026, com o Palmeiras e a CBF.
A IA consegue prever o resultado de um jogo?
Ela estima probabilidades, não resultados. Um time com 30% de chance não vence na maior parte das vezes. O modelo está bem calibrado se, somando muitos jogos, esses 30% se confirmam mais ou menos três vezes em dez.
Como fazemos esta matéria: produzida com apoio de inteligência artificial a partir das fontes citadas e pode ir ao ar sem revisão humana prévia. Erros apontados são corrigidos conforme nossa política editorial.
Manda pra quem precisa ler
Fontes
- CBF — Na estreia no Brasileirão, impedimento semiautomático tem cinco checagens em tempo médio de 47 segundos (27/07/2026)
- CBF — CBF firma contrato com a Genius Sports para implantar impedimento semiautomático a partir de 2026 (14/11/2025)
- TechTudo — Impedimento semiautomático é preciso? Tecnologia gera polêmica no Brasileirão (01/09/2026)
- FIFA — Faster offside decisions, more stable referee body cams and more analysis opportunities for teams (03/06/2026)
- FIFA — New innovations developed with Technology Partner Lenovo shine at the FIFA World Cup 2026 (30/06/2026)
- FIFA — FIFA and Lenovo unveil multiple AI-powered innovations ahead of FIFA World Cup 2026 (07/01/2026)
- adidas (comunicado reproduzido pelo Sporting KC) — adidas unveils Trionda, the official match ball of the FIFA World Cup 26
- Nature Communications — TacticAI: an AI assistant for football tactics (19/03/2024)
- Google DeepMind — TacticAI: ground-breaking AI system for football tactics (19/03/2024)
- Google — Google for Brazil 2026: Helping people make the most of AI (10/06/2026)
- The Next Web — Google DeepMind's TacticAI can predict football plays 8 seconds before they happen (11/06/2026)
- Palmeiras — Palmeiras se torna o primeiro time sul-americano a usar os dados do Opta Vision (15/01/2024)
- NeoFeed — No futebol brasileiro, saem de campo olheiros e peneiras e entra a seleção por IA (07/06/2026)
- Journal of International Medical Research — Machine learning models for injury risk prediction in football players: a systematic review (20/07/2026)
- The Analyst (Opta) — What are expected goals (xG)?
- ESPN — Spain 1-0 Argentina, estatísticas da final da Copa do Mundo (19/07/2026)
- ESPN — Soccer looks to AI for an edge: Could an algorithm really predict injuries? (04/02/2021)
- Lance! — Supercomputador aponta qual será o campeão da Copa do Mundo (13/07/2026)
- The Analyst (Opta) — How the Opta supercomputer predictions work
- EA SPORTS — FC 27 Pitch Notes: Gameplay Deep Dive (29/07/2026)
Newsletter
O que tá acontecendo na IA, contado sem enrolação
Notícias e guias de IA em português, grátis, todo dia às 7h30 no seu e-mail.


